Angústia inodora
A quinta se me chegou ao final da tarde, com sabor adstringente, sem sorriso, e um olhar amortecido nas brancas rugas invisíveis n…
Num emaranhado de mineiridades — começando por Belo Horizonte, passando por Conceição do Mato Dentro — Zé Madú estabeleceu-se em Uberaba na década de 1970, de onde não aluiu mais os pés. Formado em Letras e Literatura, construiu a reputação de excelente professor, ótimo ator e diretor.
Casou-se na "idade da paixão, teve filhos, apanhou-se com alguns netos" e descambou-se, apaixonadamente, para os poemeuzinhos. A quinta-feira passou a ter a marca do poeta, que semanalmente publica um poema inédito, recebendo aplausos dos fiéis leitores.
Ele diz não ter um estilo definido: "por isso ziguezagueio-me na permissividade poética, salvando minha diminuta visão de mundo, brincando com imagens, neologizando o apetecível, repartindo cotidianos."
A quinta se me chegou com as ventas dilatadas, a pele vermelha e um estranho quentume nas entranhas. O poemeuzinho insone se aflorou nos dedos e foi se esparramando na quietude cúmplice da página. Fez-se, não com ternura, mas com estranheza amorosa.
Olhar desvendado
Para amar,
é preciso amar-se
e amar sem ressalvas,
ter paixão sem pudor,
é preciso crer
que o amor,
não em flor,
torne-se raízes, fibras, caule,
íntima casca,
um cheiro doce na membrana da alma,
um grito mudo nos olhos,
uma faminta boca maiúscula
de maduras verdades verdes,
tratar feridas vívidas
sem dor.
Amar exige coragem e medos.
enredos rendados furta-cor
com o vermelho sobressaindo
nos poros,
lágrimas, suor e muito labor...
De resto,
é fantasia
de mocinhas sonhadoras
e mocinhos heroicos,
insones livros babados,
traiçoeiros poemas idílicos,
telenovela das oito,
café, pipoca e biscoitos industrializados
consumidos,
durante a sessão do streaming,
mãos dadas no calor das imagens,
bobagens gostosas de ver
e inviver.
Beijo mecânico
sob luas plásticas de neon.
Amar-ses desamar-ses emaranhar-ses,
indesenrolar-se em amor.
Que não só dor é o amor,
sem som, flash ou cor,
só o amor, amor.
Zemaria Madureira
A quinta se me chegou ao final da tarde, com sabor adstringente, sem sorriso, e um olhar amortecido nas brancas rugas invisíveis n…
A quinta se me chegou na imprecisão das horas — desfazia-se o escuro apenas. Olhos semicerrados, pupilas vasculhando o côncavo do …
A quinta se me chegou tardia, úmida e fria. Na quietude escura da casa, abracei-me às palavras e à quentura do corpo da companheir…
A quinta chegou fria como barriga de freezer, mas trouxe sabores quentes na boca e olhos perdidos no ontem. Quis escrever um poeme…
A quinta se me chegou com o frio nas pontas dos dedos, o corpo intanguido, mas o coração ardendo. Quis repensar a teia do amor — e…
A quinta se me chegou Christiana e com o Corpus gélido como o bafo do tubarão-da-Groenlândia. Quis me levantar, mas resolvi me enr…
Uma coletânea que reúne o melhor da produção poética de Zemaria Madureira. Com linguagem que transita entre o lírico e o coloquial, o poeta nos apresenta um Brasil mineiro visto de dentro.
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